Votar deveria significar afirmar, com autonomia, para onde queremos ir, escolhendo entre diferentes projetos. Essa é uma das promessas extraordinárias da democracia: cada cidadão, um voto. Independentemente de renda, escolaridade ou posição social, o voto de cada um tem o mesmo valor. Mas essa igualdade no voto se traduz em igual força para influenciar as eleições e as decisões dos poderes públicos?
Há boas razões para duvidar. Deixamos para trás a democracia direta das cidades gregas, em que apenas homens adultos, livres e filhos de cidadãos decidiam na praça pública. Vivemos em democracias representativas, com sufrágio praticamente universal. Essa conquista trouxe desafios ainda não equacionados, entre eles a qualidade da informação que chega às pessoas e o risco de manipulação em massa.
A filósofa alemã Lisa Herzog, no livro Citizen Knowledge, destaca o papel do conhecimento dos cidadãos no projeto democrático, que tem Estado e mercado como eixos dominantes no campo de poder. A pessoa comum dispõe de pouca informação sobre instituições, políticas públicas e a natureza dos problemas advindos do mercado que afetam a sociedade.
Herzog recupera um exemplo perturbador, anterior às redes sociais. Quando se acumulavam evidências de que o cigarro causava câncer de pulmão, a indústria do tabaco investiu pesado na produção da dúvida. Financiou os poucos cientistas que contestavam essa relação e recorreu a pesquisadores prestigiados de outras áreas para sustentar que a questão seguia em aberto. Durante décadas, as instituições públicas conviveram com essa estratégia. As medidas regulatórias foram adiadas, e milhões de pessoas morreram.
O exemplo mostra o quanto a promessa democrática ainda não se realizou. Estado e mercado dispõem de recursos, especialistas e estruturas de comunicação que lhes dão capacidade de influência muito superior à da sociedade civil, embora sejamos muito mais numerosos.
Para enfrentar essa desigualdade, Herzog propõe que a sociedade civil construa uma infraestrutura do conhecimento: uma base confiável e acessível, com universidades, instituições de pesquisa, imprensa profissional, organizações e movimentos sociais, que permita às pessoas confrontar as versões que recebem do Estado, do mercado e dos grupos de interesse. Não se trata de dizer em quem votar, mas de oferecer condições para compreender o que está em jogo.
Enquanto essa infraestrutura não existe, cabe a cada um de nós olhar com mais cuidado para as eleições. Até aqui, minha percepção é que programas de governo e propaganda eleitoral estão longe de enfrentar com profundidade os grandes problemas do país. Candidatos se esquivam de questões difíceis e das escolhas que terão de fazer.
Conhecemos os grandes desafios brasileiros? Sabemos distinguir informação confiável daquela produzida para influenciar nossas escolhas?
Proponho um exercício para os dias que restam: escolher alguns problemas que consideramos centrais, buscar informações em fontes reconhecidas e verificar como partidos e candidatos se posicionam diante deles. Não para que alguém nos diga em quem votar, mas para colocar em xeque o que pensamos saber. Cada um de nós tem um voto. Que ele seja também fruto de uma escolha informada.
Leice Garcia
Dra. em Administração
Presidente do Observatório Social de BH (OSBH)