O podcast Mais Saúde IntegralMente , com a jornalista Vera Lima Bolognini, apresenta, nesta edição, uma conversa profunda e necessária sobre ativismo, saúde mental e cuidado. Recebemos a psicóloga Soraia Marcos, o ativista social, músico e usuário da saúde mental, Camilo Cogiro e a terapeuta ocupacional Carol Santos. O episódio reúne diferentes vivências e saberes para discutir sobre esse assunto a partir de múltiplas perspectivas, sempre com foco na dignidade humana.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum tipo de sofrimento mental. No Brasil, os números cresceram de forma expressiva a partir de 2021. Transtornos de ansiedade e depressão atingem aproximadamente 38% da população, evidenciando a urgência de mais cuidado, atenção e políticas de proteção à saúde mental.
Nesse contexto, o Mais Saúde IntegralMente destaca o trabalho de Soraia Marcos, psicóloga oriunda das políticas públicas e de ações afirmativas. Mãe solo, mulher preta e militante antirracista, ela reforça a importância dessas políticas como instrumentos de reparação histórica, fundamentais para garantir acesso à educação superior e à saúde para a população negra. Segundo Soraia, negar direitos é também produzir adoecimento.
Carol Santos, formada em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2008, é especialista em saúde mental e contextos sociais. Desde o início de sua trajetória profissional, atua na área, trazendo uma perspectiva que une experiência técnica e vivência pessoal. Ao longo da carreira, passou por diversas instituições públicas e privadas, desenvolvendo trabalhos voltados ao lazer, à atividade laboral e ao autocuidado, sempre com foco na autonomia e na qualidade de vida dos pacientes.
Já Camilo Cogiro atua nas causas da saúde mental, na luta antimanicomial. Atualmente, é colaborador do Memorial Verdade e Justiça, instalado no antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), símbolo da repressão durante a ditadura militar. Usuário da rede de saúde mental há mais de 15 anos, Camilo é dependente químico em remissão e se tornou militante da causa após sua própria trajetória de recuperação. Também participou de um curso de verão sobre psicanálise, ampliando seus conhecimentos sobre o cuidado em saúde mental.
Vale esclarecere que um dependente químico em remissão é alguém que parou de usar a substância viciante, mas ainda está em processo de recuperação, sem recaídas, vivenciando um período de "ausência controlada" da droga.
Bem-estar Integral
O Mais Saúde Integralmente propõe uma reflexão sobre o atendimento digno e humanizado às pessoas que necessitam de cuidado. Soraia destaca que o conceito de saúde mental deixou de ser entendido apenas como ausência de doença. Hoje, trata-se de um bem-estar integral, que envolve condições sociais, culturais, econômicas e afetivas. A falta dessas condições gera adoecimento, reforçando a importância de compreender o sujeito de forma integral e inserido em seu contexto social.
Carol alerta que, em casos de grave adoecimento mental, especialmente quando há ruptura com a realidade, o primeiro profissional a ser procurado deve ser um médico, para avaliação clínica completa. Ela cita a menopausa como exemplo, uma vez que sintomas hormonais podem ser confundidos com depressão. Um profissional despreparado pode negligenciar fatores como vitaminas e hormônios. Por isso, é fundamental eliminar causas clínicas antes de focar exclusivamente no tratamento em saúde mental. O cuidado em situações de crise exige uma atuação integrada e criteriosa.
Dependência química: “A droga te leva nas nuvens e te solta sem paraquedas”
Ao falar sobre dependência química, Camilo Cogiro relata que sua primeira experiência ocorreu ainda na juventude, em grupos de amigos. Ele alerta que não existem drogas leves ou pesadas, pois qualquer substância pode desencadear problemas. O uso começou de forma recreativa, mas com o tempo saiu do controle. Destaca a importância do Narcóticos Anônimos (NA) como rede de apoio fundamental e relembra uma frase marcante do grupo: “A droga te leva nas nuvens e te solta sem paraquedas.”
Cogiro explica que o organismo passa a exigir doses cada vez maiores para alcançar o mesmo efeito inicial, o que leva à dependência e ao chamado “fundo do poço”. O reconhecimento desse momento foi decisivo para que ele ressignificasse sua trajetória e buscasse ajuda.
Violação de direitos X Saúde Mental
Para Soraia, falar de direitos é o primeiro passo para garantir dignidade humana. A violação de direitos impacta diretamente a saúde mental. Pessoas pretas vítimas de racismo, indivíduos em situação de rua, pessoas privadas de liberdade — todos esses contextos são fatores de adoecimento. O cuidado precisa ser integral e acompanhado da garantia de direitos.
Ela chama atenção para sintomas persistentes que permanecem mesmo após a retirada de fatores externos, como ambientes de trabalho ou familiares adoecedores. Esses sinais devem ser observados com cuidado. O corpo humano funciona como um sistema integrado e o tratamento não pode ser fragmentado.
A pandemia de Covid-19 foi outro fator determinante no agravamento do sofrimento psíquico. Vivemos um período de isolamento, redução das interações sociais e intensificação das relações virtuais, o que contribuiu significativamente para o adoecimento mental da população. Soraia ressalta que esse impacto foi ainda maior entre grupos em vulnerabilidade social, como jovens negros, mulheres e vítimas da violência e do tráfico. Para ela, políticas públicas precisam ser direcionadas a esse público específico — que tem endereço, CEP e CPF.
A luta antimanicomial, iniciada há mais de três décadas, busca reafirmar a dignidade humana. A Lei nº 10.216 estabelece o fechamento de manicômios e hospitais psiquiátricos e prioriza o cuidado em liberdade, por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). No entanto, os desafios ainda são grandes.Carol aponta que, em alguns casos, a negação do tratamento coloca o paciente em risco, especialmente em situações de surto prolongado, que podem comprometer de forma irreversível a recuperação cognitiva. Para Camilo, a recuperação é um processo contínuo, construído com resiliência, constância e propósito.
O episódio reforça que saúde mental é cuidado, é direito e é responsabilidade coletiva. Uma conversa potente, necessária e cheia de significado. Confira essa edição do Mais Saúde IntegralMente e amplie o olhar sobre cuidado, dignidade e saúde mental.
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